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BLOG | Adriana Figueiredo

Português para Concursos

Modalização e tom avaliativo em textos formais: marque posição com impessoalidade

Foto: Magnific.

A modalização epistêmica, deontológica e apreciativa ganha papel central na estruturação de um texto dissertativo-argumentativo de excelência. Por meio do uso estratégico de advérbios, adjetivos, modos verbais e construções sintáticas impessoais, é possível orientar o leitor para o ponto de vista desejado. Dominar essas ferramentas linguísticas é a chave para transformar um texto mediano em uma peça argumentativa de alto nível.

Neste artigo, exploraremos os fundamentos teóricos e gramaticais da modalização e do tom avaliativo aplicados à escrita formal. Você aprenderá como gerenciar o grau de certeza, necessidade e valoração dentro dos seus parágrafos, construindo uma argumentação sólida, persuasiva e alinhada com as exigências dos avaliadores de bancas examinadoras.

O conceito gramatical de modalização discursiva

Na gramática normativa e na linguística textual, a modalização compreende o conjunto de elementos linguísticos que revelam a atitude do enunciador em relação ao conteúdo daquilo que ele declara. Quando emitimos uma mensagem, não expressamos apenas fatos brutos; imprimimos uma intenção, um grau de adesão ou uma valoração sobre o enunciado.

A modalização é a marca da subjetividade no discurso. No entanto, enquanto nos textos informais a subjetividade transborda no uso de pronomes de primeira pessoa (“eu acho”, “no meu ponto de vista”), na escrita formal essa marca precisa ser diluída em estruturas impessoais. O autor não deixa de avaliar a realidade, mas faz isso por meio do vocabulário e da sintaxe, transferindo a força da opinião para a estrutura da frase.

A gramática categoriza a modalização em diferentes tipos, dependendo do efeito de sentido produzido no texto. Para a produção de redações e pareceres formais, três modalidades se destacam pelo impacto direto na construção argumentativa: a epistêmica, a deontológica e a apreciativa. A seguir, analisaremos detalhadamente o funcionamento de cada uma delas.

Modalização epistêmica: o controle da certeza e da dúvida

A modalização epistêmica diz respeito ao grau de certeza, probabilidade ou possibilidade que o autor atribui a determinado fato. Ela indica se a informação apresentada é tratada como uma verdade incontestável, uma hipótese plausível ou uma dúvida razoável. Veja os principais tipos: 

1. Modalização Epistêmica Assertiva

A modalidade assertiva expressa convicção absoluta. É utilizada para reafirmar a tese, consolidar premissas e demonstrar segurança argumentativa, sendo marcada por advérbios de certeza (indiscutivelmente, incontestavelmente, certamente), locuções adverbiais (sem dúvida, de fato) e verbos no modo indicativo.

Exemplo: É indiscutível que a digitalização dos serviços públicos otimizou o atendimento ao cidadão.

Perceba que a expressão “é indiscutível” atua como modalizador, eliminando a margem para questionamentos e estabelecendo a afirmação como um fato aceito, sem que o autor precise dizer “eu tenho certeza de que…”.

2. Modalização Epistêmica Quase-Assertiva ou de Probabilidade

A modalidade de probabilidade reduz o compromisso do autor com a verdade absoluta do enunciado. Trata-se de um recurso valioso ao abordar temas complexos ou dados não conclusivos, demonstrando cautela e ponderação intelectual. É construída com o uso de advérbios (provavelmente, possivelmente), verbos auxiliares (pode ser, parece ser) e o modo condicional (deveria, poderia).

Exemplo: A adoção de novas tecnologias pode mitigar os impactos da burocracia na administração.

O uso do verbo auxiliar “pode” evita uma generalização apressada e preserva o rigor do texto, demonstrando ao avaliador que o autor compreende as nuances do problema abordado.

Modalização deontológica: a expressão do dever e da necessidade

A modalização deontológica está ligada ao universo da obrigação, do dever, da permissão ou da proibição. É a ferramenta por excelência na elaboração de propostas de intervenção, conclusões argumentativas e análises de políticas públicas, pois estabelece o que deve ou precisa ser feito perante determinado cenário.

1. Indicadores gramaticais de obrigação e imperatividade

Na escrita formal, a necessidade moral ou legal é expressa prioritariamente por verbos de sentido deôntico (dever, precisar, necessitar), seguidos de infinitivo, além de locuções e adjetivos de caráter normativo (é fundamental, é indispensável, faz-se imperioso).

Exemplo: Faz-se imperioso que o Estado amplie a fiscalização nos setores estratégicos.

A estrutura impessoal “faz-se imperioso” transmite alto grau de urgência sem recorrer ao tom panfletário ou emotivo. O imperativo de ação decorre da própria gravidade do fato apresentado na argumentação.

2. A construção da necessidade moderada

Quando a proposta ou avaliação exige flexibilidade, a modalização deontológica pode ser atenuada para indicar recomendação em vez de imposição estrita. Utiliza-se, para isso, o futuro do pretérito do indicativo (deveria, seria conveniente) ou expressões atenuadas (recomenda-se, é aconselhável).

Exemplo: Seria conveniente que os gestores públicos reavaliassem as diretrizes orçamentárias.

Essa gradação entre a obrigação absoluta e a recomendação estratégica permite ao redator dosar a força da sua proposta com precisão cirúrgica.

Modalização apreciativa: o tom avaliativo sem subjetividade aparente

A modalização apreciativa compreende os recursos pelos quais o enunciador emite um juízo de valor — positivo ou negativo — sobre um fato, conceito ou ação. Trata-se da forma mais refinada de marcar posição na escrita formal, visto que transforma a adjetivação e a escolha lexical em argumentos implícitos.

1. Seleção lexical orientada

A escolha de um substantivo ou verbo carrega, intrinsecamente, uma carga avaliativa. O uso de vocabulário preciso selecionado estrategicamente orienta a interpretação do leitor sem a necessidade de adjetivações excessivas.

  • Tom neutro/expositivo: A alteração da lei gerou mudanças no setor.
  • Tom avaliativo positivo: A modernização da lei promoveu avanços no setor.
  • Tom avaliativo negativo: A reformulação da lei provocou retrocessos no setor.

Substituir “alteração” por “modernização” ou “reformulação”, e “mudanças” por “avanços” ou “retrocessos” altera completamente o valor argumentativo da frase, mantendo a estrutura estritamente impessoal.

2. Adjetivação avaliativa e estruturas predicativas

Adjetivos com valor axiológico (que expressam julgamento de bom/mau, adequado/inadequado) devem ser empregados como qualificadores objetivos do fato. A estrutura sintática com orações subordinadas subjetivas (“é preocupante que”, “é louvável que”) permite exteriorizar o julgamento de valor como se fosse um atributo inerente à própria realidade.

Exemplo: É preocupante a morosidade do Judiciário diante de demandas urgentes.

Em vez de declarar “eu me preocupo com a demora”, o autor projeta o atributo “preocupante” sobre o fato “morosidade”, naturalizando o juízo de valor.

Estratégias práticas para marcar posição com impessoalidade

Para aplicar com êxito a modalização e o tom avaliativo na sua produção escrita, é preciso adotar certas técnicas de reescrita e estruturação sintática. Abaixo, apresentamos a sistematização de três estratégias eficazes para neutralizar a primeira pessoa e fortalecer a contundência da tese.

1. Substituição da primeira pessoa por sujeitos oracionais

Evite formas como “penso que”, “acredito que” ou “no nosso entendimento”. Empregue matrizes oracionais impessoais seguidas de oração subordinada substantiva subjetiva.

  • Inadequado: Penso que a educação deve ser prioridade total do governo.
  • Adequado: É indiscutível que a consolidação da educação exige prioridade orçamentária.

2. Uso da voz passiva e da partícula apassivadora

A voz passiva sintética permite destacar o fato ou a análise, ocultando o agente da declaração e projetando um tom de imparcialidade científica ao argumento.

  • Inadequado: Analisamos os resultados e vimos que a meta foi atingida.
  • Adequado: Constata-se, pela análise dos dados, o atingimento integral das metas estabelecidas.

3. Nominalização para adensamento conceitual

A nominalização consiste em transformar verbos em substantivos abstratos. Esse processo retira a ação do tempo imediato e confere ao texto um caráter teórico e formal, propício para a inclusão de adjuntos adjetivos modalizadores.

  • Inadequado: Quando as autoridades negligenciam a saúde, o povo sofre.
  • Adequado: A negligência estatal no âmbito da saúde pública acarreta severas consequências sociais.

Erros comuns no uso do tom avaliativo e como evitá-los

Embora a modalização seja indispensável para argumentar com autoridade, o uso inadequado ou exagerado de seus recursos pode comprometer a credibilidade do texto. Destacamos as falhas mais frequentes cometidas em provas discursivas:

  • Adjetivação panfletária ou emotiva: o emprego de adjetivos carregados de dramaticidade (“absurdo”, “inadmissível”, “maravilhoso”, “terrivel”) expõe falta de controle emocional. Substitua vocábulos emotivos por qualificadores técnicos (“inadequado”, “desproporcional”, “eficaz”, “defasado”).
  • Superlotação de modalizadores de certeza: o excesso de advérbios como “com certeza”, “obviamente” e “completamente” pode transmitir arrogância e fraqueza argumentativa. Use a assertividade com parcimônia e fundamente cada afirmação em dados ou premissas lógicas.
  • Incoerência entre modalizadores: combinar um modalizador de dúvida com um de obrigação estrita cria ruído semântico e confusão teórica. Mantenha a coerência tonal ao longo de todo o parágrafo.
  • Uso incorreto do pronome “onde”: conforme visto em tópicos de coesão, evite utilizar “onde” para introduzir cenários conceituais ou teses (“a situação onde a sociedade se encontra”). Opte por “em que”, “na qual” ou “cenário no qual”.

A modalização e o tom avaliativo constituem o núcleo da argumentação formal de alto nível. Saber posicionar-se com firmeza sem recorrer à primeira pessoa é a marca definitiva do redator maduro, que domina a sintaxe e o léxico da língua portuguesa para construir discursos persuasivos, elegantes e irrepreensíveis.

Se o seu objetivo é alcançar o topo da lista de aprovados, dominar a norma-padrão de forma estratégica é o caminho mais rápido para transformar o seu desempenho nas provas discursivas e objetivas. 

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Sobre Adriana Figueiredo

Há mais de 25 anos, leciona em cursos presenciais e online para alunos de todo o Brasil. Suas redes sociais, juntas, têm mais de 1,2 milhão de seguidores. Especialista em português e redação para concursos, é dona de uma metodologia patenteada que ensina com lógica. Além de ser professora exclusiva do Estratégia Concursos, possui um site especializado em Língua Portuguesa, cuja plataforma de aulas conta com mais de 4 mil alunos matriculados. Também é autora de várias obras, entre elas a “Gramática Comentada” lançada pela Editora Saraiva, considerada em 2016 como um dos "10 livros de português indispensáveis para concurseiros" pela Revista Exame.

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