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BLOG | Adriana Figueiredo

Português para Concursos

“Que” multifuncional: como identificar cada uso?

Poucas palavras da língua portuguesa causam tanta confusão quanto o “que”. Em provas, redações, textos acadêmicos e até em conversas do dia a dia, o “que” multifuncional aparece exercendo funções diferentes, assumindo papéis sintáticos variados e mudando completamente o sentido das frases.

Não é exagero dizer que o “que” é uma das palavras mais multifuncionais da gramática da língua portuguesa. Ele pode atuar como pronome relativo, conjunção integrante, partícula expletiva, pronome interrogativo, substantivo e muito mais. O problema é que muitos estudantes tentam decorar listas intermináveis de classificações sem compreender a lógica por trás de cada uso.

A boa notícia é que existem testes simples capazes de ajudar na identificação correta dessa palavra em praticamente qualquer contexto. E, quando você aprende a observar a estrutura da frase, o reconhecimento passa a ser um processo lógico.

A seguir, vamos analisar os principais usos do “que”, apresentar estratégias práticas de identificação e comentar exemplos que costumam aparecer em avaliações.

Por que o “que” é tão importante? Conheça os principais usos da palavra “que”

O estudo da palavra “que” ocupa lugar de destaque na gramática justamente porque ela aparece em diferentes classes gramaticais e estruturas sintáticas. Além disso, questões envolvendo o “que” normalmente exigem interpretação sintática e compreensão do período composto. Ou seja: não basta decorar conceitos. É necessário entender a relação entre as orações.

Embora existam várias classificações possíveis, alguns usos aparecem com muito mais frequência em provas e textos formais. Vamos aos principais:

1. Pronome relativo

O pronome relativo retoma um termo anterior, chamado antecedente, como em “Este é o livro que comprei ontem.” Nesse caso, o “que” retoma “livro”. Assim, o pronome relativo funciona como uma ponte entre duas orações.

Como identificar?

Um dos testes mais eficientes é substituir o “que” por “o qual”, “a qual”, “os quais” ou “as quais”. Se a frase continuar correta,  trata-se de um pronome relativo.

2. Conjunção integrante

A conjunção integrante introduz uma oração subordinada substantiva. Em “Sei que você estudou”, o “que” não retoma nenhum termo anterior. Sua função é apenas conectar as orações, introduzindo a ideia que completa o sentido do verbo.

Como identificar?

Observe se a oração introduzida pelo “que” exerce função típica de substantivo, como sujeito, objeto direto ou complemento nominal. Outro teste importante é retirar o “que” da frase. Se a estrutura ficar comprometida, isso indica que ele é indispensável para ligar as orações.

3. Pronome interrogativo

O “que” também pode funcionar como pronome interrogativo em frases que apresentam ideia de pergunta, como em “Que aconteceu aqui?” ou “Você quer o quê?”. Nesse caso, ele introduz uma informação interrogativa, seja em pergunta direta ou indireta.

Como identificar?

Basta observar se a frase possui sentido interrogativo. Se o “que” estiver relacionado a uma pergunta, provavelmente exercerá função de pronome interrogativo.

4. Partícula expletiva ou de realce

Em algumas construções, o “que” aparece apenas para reforçar ou enfatizar determinada informação, como em “Foi ele que resolveu o problema”. Nessa situação, o termo não possui função sintática essencial, atuando apenas como elemento de destaque na frase.

Como identificar?

Verifique se o “que” está ligado a uma estrutura enfática. Em muitos casos, sua retirada compromete a naturalidade da construção, mas não elimina a ideia principal da frase.

5. Substantivo

O “que” também pode assumir valor substantivo, como em “Ele sempre tem um quê de mistério”. Nesse contexto, a palavra transmite a ideia de “algo”, “certa característica” ou “um traço particular”.

Como identificar?

Observe se o termo aparece acompanhado de artigo ou expressão determinante. Quando há elementos como “um”, “esse” ou “aquele” antes do “que”, ocorre substantivação.

Diferenciação por testes simples

Muitos estudantes acreditam que identificar a função do “que” depende apenas de decorar regras complexas. Na prática, alguns testes rápidos resolvem boa parte das dúvidas. Confira alguns deles: 

  1. Substituição por “o qual”: se o “que” puder ser substituído por “o qual”, “a qual”, “os quais” ou “as quais”, provavelmente ele será um pronome relativo.
  2. Existência de antecedente: observe se o “que” retoma uma palavra anterior na frase. Se houver esse termo antecedente, há grande chance de o “que” funcionar como pronome relativo.
  3. Valor de pergunta: quando o “que” aparece com sentido interrogativo, ele funciona como pronome interrogativo.
  4. Oração com valor substantivo: se a oração iniciada pelo “que” funcionar como sujeito, objeto ou complemento, o termo provavelmente será uma conjunção integrante.
  5. Retirada sem prejuízo estrutural relevante: quando o “que” apenas reforça ou enfatiza uma informação, ele pode ser classificado como partícula expletiva ou de realce.

Estes testes ajudam a identificar a função do “que” de forma muito mais lógica e prática. Em vez de depender apenas da memorização de regras gramaticais, o ideal é observar o contexto da frase e a relação entre as orações. 

Erros frequentes e correções

Os diferentes usos do “que” costumam gerar muitas dúvidas porque a palavra pode exercer funções variadas dentro da oração. Em muitos casos, o erro acontece não pela falta de conhecimento da regra, mas pela dificuldade em analisar o contexto sintático da frase. Por isso, observar os equívocos mais comuns ajuda a compreender melhor o funcionamento desse termo na língua portuguesa.

1. Confundir pronome relativo com conjunção integrante

Esse é um dos erros mais frequentes em provas e análises sintáticas. Em frases como “O professor disse que corrigiria a prova”, muitas pessoas classificam o “que” como pronome relativo apenas porque existem duas orações no período. No entanto, não há nenhum termo antecedente sendo retomado, o “que” apenas introduz a oração subordinada, funcionando como conjunção integrante.

2. Achar que todo “que” pode ser substituído por “o qual”

Embora o teste da substituição por “o qual” seja bastante útil, ele não funciona em todos os casos. Em “Acho que ele chegará cedo”, por exemplo, a troca não é possível, o que demonstra que o “que” não exerce função de pronome relativo. Aqui, o termo atua como conjunção integrante, ligando as orações.

3. Ignorar o contexto sintático

Outro problema comum é analisar o “que” isoladamente, sem considerar a estrutura completa da frase. A função desse termo depende diretamente da relação estabelecida entre as orações. Em “O livro que comprei sumiu”, o “que” retoma o substantivo “livro”, funcionando como pronome relativo. Já em “Acho que perdi o livro”, o termo apenas conecta as orações, atuando como conjunção integrante.

4. Confundir partícula expletiva com elemento essencial

Muitas vezes, o “que” aparece apenas com valor enfático, mas acaba sendo interpretado como elemento indispensável da oração. Em construções como “É você que decide”, o termo serve para dar destaque à informação. Já em “Disse que viria”, o “que” é essencial para estabelecer a ligação entre as orações e não pode ser retirado sem prejuízo estrutural.

Compreender esses erros ajuda a tornar a análise gramatical mais lógica e segura. Em vez de depender apenas da memorização de classificações, o ideal é observar o papel que o “que” desempenha dentro do contexto da frase.

Como estudar o “que” de forma eficiente?

A melhor estratégia é abandonar a ideia de decorar classificações isoladas e começar a analisar frases completas. Algumas dicas ajudam bastante:

  • Leia períodos compostos com atenção
  • Faça testes de substituição
  • Identifique a função da oração
  • Resolva questões comentadas

O “que” é uma palavra extremamente versátil na língua portuguesa, mas isso não significa que seu estudo precise ser complicado. Quando entendemos a lógica das relações sintáticas e aplicamos testes simples, a identificação dos diferentes usos torna-se muito mais intuitiva.

Mais importante do que decorar nomenclaturas é compreender a estrutura da frase. Afinal, a gramática funciona como um sistema de relações, e o “que” é um dos melhores exemplos disso.

Com prática, leitura e análise cuidadosa, você passa a reconhecer rapidamente se o termo atua como pronome relativo, conjunção integrante, pronome interrogativo ou partícula expletiva. E esse domínio faz diferença tanto em provas quanto na produção de textos mais claros, coesos e precisos.

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Sobre Adriana Figueiredo

Há mais de 25 anos, leciona em cursos presenciais e online para alunos de todo o Brasil. Suas redes sociais, juntas, têm mais de 1,2 milhão de seguidores. Especialista em português e redação para concursos, é dona de uma metodologia patenteada que ensina com lógica. Além de ser professora exclusiva do Estratégia Concursos, possui um site especializado em Língua Portuguesa, cuja plataforma de aulas conta com mais de 4 mil alunos matriculados. Também é autora de várias obras, entre elas a “Gramática Comentada” lançada pela Editora Saraiva, considerada em 2016 como um dos "10 livros de português indispensáveis para concurseiros" pela Revista Exame.

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