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BLOG | Adriana Figueiredo

Português para Concursos

Concordância nominal e verbal na prática

A concordância nominal é um daqueles assuntos da Língua Portuguesa que parecem simples até encontrarmos uma construção que coloca a regra à prova. Em frases com  mais de um substantivo na mesma estrutura, é comum surgir a dúvida: qual termo deve determinar a forma correta?

O segredo está em identificar a estrutura da oração. Saber qual é o núcleo, observar a posição do adjetivo e entender a relação entre os termos permite chegar à concordância adequada com muito mais segurança.

A seguir, vamos organizar essas situações de forma prática. A ideia é montar um verdadeiro mapa da concordância nominal, passando  pelas construções com núcleos compostos, além de destacar os casos em que mais de uma forma pode ser admitida pela norma-padrão.

Mapa da concordância nominal: antes de escolher a forma, encontre o núcleo

Quando o assunto é concordância nominal, uma das perguntas mais importantes é: com qual termo a palavra deve concordar? Na concordância nominal, o adjetivo acompanha o substantivo ou pronome a que se refere, ajustando-se em gênero e número. Por isso, identificar a função e a posição do adjetivo é fundamental.

Quando um adjetivo aparece depois de dois ou mais substantivos, há, em determinadas construções, a possibilidade de concordância com todos os termos ou com o mais próximo. Se os substantivos forem de gêneros diferentes e a concordância for feita com todos, o adjetivo vai para o masculino plural.

Observe:

  • Prédio e apartamento antigos.
  • Prédio e apartamento antigo.
  • Documentação e bagagem intactas.
  • Documentação e bagagem intacta.

Nos exemplos, a primeira opção estabelece a concordância com os dois substantivos, enquanto a segunda adota a chamada concordância atrativa, feita com o termo mais próximo. A gramática também ressalta que o sentido da frase pode determinar a escolha.

A posição do adjetivo também interfere. Quando ele vem antes de dois ou mais substantivos, a recomendação é que concorde com o substantivo mais próximo: “antigas revistas e jornais”. Há, porém, uma situação particular quando aparecem nomes de pessoas ilustres, caso em que o adjetivo vai para o plural.

Concordância verbal: 5 regras para aplicar, da porcentagem aos núcleos compostos

Para aplicar as regras de concordância verbal com segurança, é importante observar não apenas a palavra que aparece mais próxima, mas também a estrutura completa da frase. Em construções com porcentagens, coletivos e mais de um núcleo, pequenos detalhes podem alterar a forma adequada. 

A seguir, veja como analisar cada caso e quais critérios ajudam a fazer a escolha de acordo com a norma-padrão. 

1. Porcentagens: observe o numeral e o termo que vem depois

As construções com porcentagem costumam gerar dúvidas porque apresentam mais de um elemento que pode influenciar a concordância verbal. De acordo com a gramática, quando o sujeito é formado por um número percentual, o verbo pode concordar com o numeral ou com o termo que aparece depois dele.

Veja:

Oitenta por cento da população acreditam na moeda.

Nesse caso, o verbo acreditam concorda com o numeral “oitenta”, que leva o verbo ao plural. A referência também admite a possibilidade de concordância com o termo posposto (população – acredita),mas aponta a concordância com o núcleo como a opção preferível em textos mais formais.

Há ainda uma atenção especial quando a porcentagem vem acompanhada de artigo:

Os 30% da produção de arroz estragaram.

Nesse caso, o verbo vai para o plural, em concordância com o determinante ‘os’. Portanto, não seria adequado utilizar o singular em uma construção desse tipo.

A melhor estratégia, portanto, é não olhar apenas para a palavra que aparece imediatamente antes do verbo. Analise toda a estrutura e identifique o elemento que funciona como núcleo.

2. Coletivos: o sentido plural não muda a forma do núcleo

Palavras como bando, grupo, equipe, multidão e outras expressões coletivas representam uma pluralidade de seres, mas continuam sendo substantivos no singular. Por isso, quando constituem o núcleo do sujeito, o verbo deve permanecer no singular.

Assim:

O bando desapareceu.

A ideia é de várias pessoas ou animais, mas o núcleo da estrutura é bando, substantivo singular. É justamente essa diferença entre o sentido coletivo e a forma gramatical que costuma provocar erros.

A mesma lógica deve ser aplicada a outras construções semelhantes. Em vez de pensar apenas no número de indivíduos representados pelo coletivo, procure a palavra que efetivamente funciona como núcleo do sujeito.

Isso evita construções como “O grupo chegaram” ou “A equipe venceram” quando não houver outro elemento que justifique uma concordância diferente.

3. Expressões partitivas na concordância verbal: maioria, parte e grande número

As expressões a maioria de, grande parte de, grande número de apresentam uma situação um pouco diferente. Quando aparecem acompanhadas de um nome no plural, o verbo pode concordar tanto com o núcleo da expressão quanto com o termo que vem depois.

Por exemplo:

A maioria das pessoas gostou do espetáculo.

A maioria das pessoas gostaram do espetáculo.

As duas possibilidades são registradas pela gramática, mas a concordância com o núcleo maioria, no singular, é apresentada como a opção mais adequada, especialmente em textos formais.

Essa orientação é útil para provas, redações e textos profissionais: quando houver duas possibilidades normativas, a escolha pela concordância com o núcleo costuma ser a alternativa mais segura.

O raciocínio também ajuda a entender por que “grande parte dos candidatos participou” é uma construção plenamente adequada. O núcleo é parte, e não candidatos.

4. Núcleos compostos na concordância nominal: descubra a posição do adjetivo

Quando dois ou mais substantivos formam uma estrutura composta e recebem um mesmo adjetivo, a posição desse adjetivo merece atenção. Se ele vier posposto, pode concordar com todos os substantivos ou, em determinadas situações, com o mais próximo.

Assim, temos:

Ação e julgamento éticos.

Ação e julgamento ético.

Na primeira construção, éticos concorda com os dois substantivos. Como há um termo masculino e outro feminino, o plural assume a forma masculina. Na segunda, ético concorda apenas com o substantivo mais próximo, julgamento.

Já quando o adjetivo aparece antes dos substantivos, a regra muda:

Antigas revistas e jornais.

Aqui, antigas concorda com o substantivo mais próximo, revistas. Essa diferença de posição é um dos pontos que merecem atenção especial na hora de resolver questões.

5. Predicativo com sujeito composto: a estrutura determina a concordância

Outra construção importante aparece quando o adjetivo exerce a função de predicativo do sujeito. Se o sujeito é composto e o predicativo vem depois dele, o adjetivo concorda com todos os núcleos.

Veja:

A assistência técnica e o ensino eram gratuitos.

Como os núcleos são assistência e ensino, de gêneros diferentes, o predicativo assume a forma masculina plural: gratuitos.

Quando o predicativo aparece antes do sujeito, a análise exige um pouco mais de atenção. A concordância pode acompanhar a forma assumida pelo verbo. 

Compare:

Eram gratuitos a assistência técnica e o ensino.

Era gratuita a assistência técnica e o ensino.

Na primeira frase, o verbo está no plural, e o predicativo também vai para o plural. Na segunda, o verbo está no singular, concordando com o núcleo mais próximo, assistência, e o adjetivo acompanha essa escolha.

Zonas de risco: quando a concordância parece mais difícil do que realmente é

Os erros mais frequentes surgem quando tentamos fazer a concordância apenas pelo termo que está mais próximo. Essa estratégia pode funcionar em algumas estruturas, mas não é suficiente para todas. É preciso identificar a função sintática e entender a relação entre os elementos.

Um bom exemplo é o adjetivo que acompanha vários substantivos, mas cujo sentido se aplica apenas a um deles. Na frase “Comprou frutas, ovos e carne bovina”, por exemplo, bovina precisa concordar com carne, porque semanticamente não faria sentido qualificar frutas e ovos como bovinos.

Outra zona de risco aparece nos adjetivos compostos. Quando o composto é formado por adjetivo + adjetivo, normalmente apenas o último elemento varia: amizades luso-brasileiras, saias vermelho-claras. Há, porém, exceções importantes, como azul-marinho, azul-celeste e ultravioleta, que permanecem invariáveis, e surdo-mudo, em que os dois elementos variam.

Quando o adjetivo composto contém um substantivo, os elementos permanecem invariáveis; cor representada por substantivo fica invariável. 

  • tecidos verde-limão;
  • bermudas amarelo-ouro;
  • blusas laranja;
  • sapatos cinza.

Isso acontece porque, nesses casos, o termo que representa a cor é um substantivo, e não um adjetivo sujeito à flexão.

Por isso, diante de uma dúvida de concordância, vale seguir um pequeno roteiro:

  1. Identifique o núcleo da construção.
  2. Descubra a que termo o adjetivo ou verbo está ligado.
  3. Observe se existem dois ou mais núcleos.
  4. Verifique a posição do adjetivo em relação aos substantivos.
  5. Considere o sentido da frase antes de escolher a forma.

Esse procedimento é mais seguro do que tentar decorar uma lista extensa de exceções. Afinal, muitas das chamadas “pegadinhas” de concordância deixam de ser difíceis quando a estrutura sintática fica clara.

Concordância na hora da prova: como justificar a escolha normativa

Em provas e textos formais, saber que uma construção está correta é importante, mas saber por que ela está correta é ainda mais. Em casos que envolvem concordância nominal, a justificativa normalmente começa pela identificação do núcleo e pela relação que ele estabelece com o termo que precisa concordar.

Nas porcentagens,na concordância verbal por exemplo, a explicação deve considerar o numeral e o termo posposto. Nas expressões partitivas, como a maioria de e grande parte de, é necessário reconhecer que há mais de uma possibilidade de concordância, sendo preferível, em situações formais, aquela feita com o núcleo da expressão.

Na concordância nominal,nos núcleos compostos, por sua vez, a justificativa depende da função do adjetivo e de sua posição. Um adjetivo posposto pode admitir concordância total ou atrativa em determinadas estruturas, enquanto o adjetivo anteposto tende a concordar com o substantivo mais próximo.

Essa percepção também ajuda a evitar um erro comum: acreditar que, sempre que houver mais de um substantivo, o plural será obrigatório. A concordância nominal possui mecanismos de concordância total e atrativa, e a escolha pode depender tanto da posição dos termos quanto do sentido pretendido.

Em outras palavras, a norma-padrão não funciona como uma coleção de respostas isoladas. Ela oferece critérios. Quanto melhor você reconhecer esses critérios, mais facilidade terá para resolver uma questão nova, revisar um texto ou justificar uma escolha gramatical.

O segredo está em encontrar o núcleo

Porcentagens, coletivos, expressões partitivas e núcleos compostos(na concordância verbal) podem parecer assuntos diferentes, mas todos exigem a mesma habilidade fundamental: observar a estrutura da frase antes de decidir a concordância.

Nas porcentagens e expressões como a maioria de, é importante reconhecer as possibilidades previstas pela norma e, em textos formais, priorizar a concordância com o núcleo, quando essa for a opção mais adequada. Nos coletivos, lembre-se de que o sentido de pluralidade não transforma o núcleo singular em plural. Já na concordância nominal,nos núcleos compostos, observe a posição e a função do adjetivo para determinar a forma correta.

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Sobre Adriana Figueiredo

Há mais de 25 anos, leciona em cursos presenciais e online para alunos de todo o Brasil. Suas redes sociais, juntas, têm mais de 1,2 milhão de seguidores. Especialista em português e redação para concursos, é dona de uma metodologia patenteada que ensina com lógica. Além de ser professora exclusiva do Estratégia Concursos, possui um site especializado em Língua Portuguesa, cuja plataforma de aulas conta com mais de 4 mil alunos matriculados. Também é autora de várias obras, entre elas a “Gramática Comentada” lançada pela Editora Saraiva, considerada em 2016 como um dos "10 livros de português indispensáveis para concurseiros" pela Revista Exame.

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