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BLOG | Adriana Figueiredo

Português para Concursos

Figuras de linguagem que derrubam candidatos: você reconhece todas?

A interpretação textual e o domínio dos recursos estilísticos constituem pilares fundamentais para a leitura crítica de textos formais, literários e opinativos. Entre os mecanismos expressivos da Língua Portuguesa, as figuras de linguagem ocupam um lugar de destaque: elas expandem as possibilidades de sentido das palavras, criam efeitos de expressividade e exigem do leitor uma capacidade analítica que vai muito além da decodificação literal do vocabulário.

No entanto, o estudo das figuras de linguagem frequentemente recebe uma atenção superficial. Muitos leitores restringem-se a memorizar definições básicas de metáfora ou ironia, ignorando recursos de sintaxe e de pensamento mais elaborados. Essa lacuna teórica torna-se um gargalo quando o texto exige a identificação de conotações sutis, desvios gramaticais intencionais ou jogos de sentido estruturados por autores e articulistas.

Neste artigo, apresentamos uma análise aprofundada dos recursos estilísticos de maior complexidade conceitual. Confira a seguir um guia prático e detalhado sobre as figuras de palavra, de pensamento e de sintaxe que costumam gerar ambiguidades e erros de interpretação, capacitando você a reconhecer cada uma delas com mais precisão.

O papel da linguagem conotativa na construção de sentidos

Para compreender a fundo o funcionamento das figuras de linguagem, o primeiro passo consiste em diferenciar a linguagem denotativa da conotativa. Enquanto a denotação utiliza as palavras em seu sentido literal, dicionarizado e objetivo, a conotação explora a plurissignificação, atribuindo aos termos novos significados com base em associações culturais, contextuais e afetivas.

As figuras de linguagem são desvios intencionais em relação ao uso estritamente denotativo ou à norma sintática padrão. Longe de representarem incorreções gramaticais, esses desvios cumprem funções comunicativas específicas: intensificar uma ideia, conferir ritmo à frase, suavizar uma declaração ou gerar reflexão por meio do contraste.

A gramática normativa organiza os recursos estilísticos em quatro categorias principais:

  • Figuras de Palavra (ou Tropos): fundamentam-se na substituição de um termo por outro com base em relações de semelhança ou contiguidade semântica.
  • Figuras de Pensamento: atuam no plano das ideias e dos conceitos, alterando a percepção do enunciado.
  • Figuras de Sintaxe (ou de Construção): interferem na estrutura gramatical da oração, alterando a ordem, omitindo elementos ou promovendo repetições intencionais.
  • Figuras de Som (ou Harmonia): exploram a sonoridade e o ritmo das palavras.

A seguir, examinaremos detalhadamente os recursos mais complexos dentro de cada uma dessas categorias.

Figuras de palavra: indo além do óbvio

As figuras de palavra ocorrem quando há a transferência do significado próprio de um termo para um sentido figurado. Embora a metáfora seja o recurso mais popular dessa categoria, outras figuras apresentam nuances semânticas que exigem atenção redobrada. Veja as principais delas: 

1. Metáfora x Comparação

A metáfora é uma comparação implícita, na qual o elemento comparativo (como, tal qual, parece) é omitido. Ela estabelece uma relação de identidade direta entre dois termos de universos distintos.

  • Comparação: O tempo flui como um rio impetuoso.
  • Metáfora: O tempo é um rio impetuoso.

2. Metonímia: a relação de contiguidade

A metonímia consiste na substituição de um termo por outro quando entre eles existe uma relação lógica, real e de proximidade de sentido. Diferente da metáfora (que se baseia na semelhança), a metonímia apoia-se na continuidade factual dos conceitos.

Tipo de substituiçãoExemplo práticoExplicação semântica
O autor pela obraEle costuma ler Machado de Assis à noite.Lê-se o livro escrito por Machado, não a pessoa.
O continente pelo conteúdoA criança bebeu dois copos de leite.Bebeu-se o líquido contido nos copos.
A parte pelo todo (Sínedoque)Várias cabeças de gado ocupavam o pasto.O termo “cabeças” representa a totalidade dos animais.
O abstrato pelo concretoA juventude precisa manifestar sua voz.“Juventude” representa os jovens (seres concretos).

3. Catacrese e Sinestesia

A catacrese ocorre quando, por falta de um termo específico na língua para designar determinado objeto ou ação, utiliza-se uma palavra já existente por empréstimo figurado (“pé da mesa”, “braço da poltrona”, “dente de alho”). Como seu uso tornou-se institucionalizado, a catacrese perdeu a carga de novidade poética.

Já a sinestesia, por sua vez, consiste no cruzamento de diferentes impressões sensoriais (visão, audição, tato, paladar e olfato) em uma mesma expressão.

Figuras de pensamento: o jogo das ideias e conceitos

As figuras de pensamento operam diretamente na esfera conceitual do texto. Elas remodelam o modo como uma afirmação é percebida, podendo atenuar, intensificar ou contradizer a mensagem literal. Conheça as principais: 

1. Antítese x Paradoxo (Oxímoro)

A distinção entre antítese e paradoxo é uma das maiores fontes de confusão na análise textual.

  • Antítese: aproximação de palavras ou pensamentos de sentidos opostos, mantendo a coerência lógica da frase. As ideias contrastam-se, mas não se anulam.
  • Paradoxo: reunião de ideias aparentemente contraditórias e mutuamente excludentes em um mesmo pensamento, desafiando a lógica convencional para revelar uma verdade mais profunda.

2. Eufemismo e Hipérbole

O eufemismo é o emprego de palavras ou expressões agradáveis e suaves para substituir termos de sentido desagradável, chocante ou vulgar (“ele partiu para o plano superior” em vez de “morreu”).

A hipérbole caminha no sentido inverso: representa a exacerbação ou o exagero intencional de uma ideia para impressionar o leitor ou conferir ênfase extrema ao enunciado (“já declarei isso um milhão de vezes”).

3. Lítote e Ironia

A lítote é uma forma sutil de atenuação que consiste em afirmar algo por meio da negação do seu oposto. É um recurso frequente no discurso formal para demonstrar modéstia ou cautela.

Enquanto isso, a ironia consiste em dizer o oposto do que se pensa, com intenção sarcástica ou reflexiva. O sucesso da ironia depende inteiramente do contexto, do tom de voz ou das pistas textuais que sinalizam a inversão de sentido.

Figuras de sintaxe: desvios estruturais intencionais

As figuras de sintaxe (ou de construção) ocorrem quando a estrutura gramatical da frase sofre alterações para atender a exigências de ritmo, concisão, ênfase ou expressividade. O conhecimento detalhado desses recursos previne a falsa identificação de erros de regência ou concordância.

1. Elipse e Zeugma

Ambas as figuras dizem respeito à omissão de termos na oração, mas possuem uma diferença estrutural marcante:

  • Elipse: omissão de um termo que não foi mencionado anteriormente no texto, mas que pode ser facilmente subentendido pelo contexto ou pela desinência verbal.
    Exemplo: “Na mesa, apenas papéis e canetas.” (Omissão do verbo havia).
  • Zeugma: omissão de um termo que já foi expresso anteriormente na mesma frase, evitando repetições desnecessárias.
    Exemplo: “O primeiro relator analisou o processo; o segundo, o recurso.” (Omite-se o verbo analisou na segunda oração).

2. Anacoluto: a ruptura da sintaxe

O anacoluto ocorre quando um termo é introduzido no início da frase para destacar um tema, mas fica desprovido de função sintática (sem verbo ou regência ligada a ele), pois a construção da frase é interrompida e reiniciada.

3. Pleonasmo literário x pleonasmo vicioso

O pleonasmo é a repetição de uma mesma ideia por meio de palavras diferentes. É fundamental distinguir o pleonasmo estilístico (literário) do pleonasmo vicioso (vício de linguagem).

  • Pleonasmo estilístico: empregado intencionalmente para reforçar a mensagem.
  • Pleonasmo vicioso: redundância desnecessária gerada por desconhecimento do significado dos termos, devendo ser evitada na escrita formal.

4. Hipérbato, assíndeto e polissíndeto

Essas três figuras de sintaxe atuam sobre a organização dos termos e orações no período, alterando a ordem esperada ou a forma como as ideias se conectam.

O hipérbato consiste na inversão drástica da ordem direta dos termos da oração — ou seja, do arranjo habitual entre sujeito, verbo e complementos. Um exemplo clássico está no Hino Nacional Brasileiro: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante.” Em ordem direta, a frase seria algo como “As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico”, mas a inversão confere solenidade e ritmo ao verso.

Já o assíndeto é a omissão das conjunções coordenativas entre orações ou termos, o que confere agilidade e concisão à frase. O exemplo mais célebre é a frase atribuída a Júlio César: “Vim, vi, venci.” Note que as três orações estão simplesmente justapostas, sem conectivos, o que intensifica a sensação de rapidez e sucessão imediata das ações.

Por fim, o polissíndeto é o efeito contrário ao assíndeto: trata-se da repetição reiterada de uma mesma conjunção coordenativa, criando um ritmo de acúmulo e insistência. É o que ocorre em: “E estuda, e trabalha, e planeja, e não descansa jamais.” A repetição do “e” reforça a ideia de continuidade incansável das ações.

Tira-dúvidas: distinções cruciais no exame de textos

Para facilitar a consulta e a diferenciação rápida entre figuras que possuem nomes ou mecanismos parecidos, sintetizamos os pares conceituais de maior complexidade no quadro abaixo:

Par de figurasCritério de diferenciação
Metáfora x MetonímiaMetáfora baseia-se em semelhança (comparação implícita); Metonímia baseia-se em contiguidade (relação real/lógica entre as partes).
Elipse x ZeugmaElipse omite termo inédito no texto; Zeugma omite termo já citado anteriormente.
Antítese x ParadoxoAntítese reúne ideias contrárias que coexistem; Paradoxo reúne ideias contraditórias que anulam a lógica estrita.
Anacoluto x HipérbatoAnacoluto quebra a sintaxe deixando termo sem função; Hipérbato apenas inverte a ordem dos termos sem quebrar a sintaxe.

O domínio das figuras de linguagem é uma competência indispensável para a leitura de textos opinativos, literários e analíticos. Ao reconhecer os mecanismos da conotação, da inversão sintática e dos jogos de sentido, você passa a interpretar enunciados com maior profundidade, identificando as intenções do autor e a riqueza das estruturas linguísticas.

Incorporar esse conhecimento à sua rotina de estudos expande sua capacidade crítica e aperfeiçoa sua escrita, permitindo o uso consciente de recursos de ênfase, clareza e elegância.

Escrever de acordo com a norma-padrão é o que decide quem fica pelo caminho e quem chega à nomeação. Está na hora de mudar completamente sua rotina de estudos em Língua Portuguesa e montar uma base sólida para deixar de perder pontos preciosos. Com trilhas de conteúdo bem definidas, questões estratégicas e orientação de quem é referência no tema, sua preparação muda de nível. Descubra a Assinatura Total Master e acelere sua chegada à aprovação! 

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Sobre Adriana Figueiredo

Há mais de 25 anos, leciona em cursos presenciais e online para alunos de todo o Brasil. Suas redes sociais, juntas, têm mais de 1,2 milhão de seguidores. Especialista em português e redação para concursos, é dona de uma metodologia patenteada que ensina com lógica. Além de ser professora exclusiva do Estratégia Concursos, possui um site especializado em Língua Portuguesa, cuja plataforma de aulas conta com mais de 4 mil alunos matriculados. Também é autora de várias obras, entre elas a “Gramática Comentada” lançada pela Editora Saraiva, considerada em 2016 como um dos "10 livros de português indispensáveis para concurseiros" pela Revista Exame.

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