
Em textos de concurso, especialmente em provas discursivas, é comum o candidato associar uma escrita mais formal a frases longas, palavras rebuscadas e construções extremamente impessoais. A preocupação em demonstrar domínio da norma-padrão, porém, pode acabar produzindo um efeito contrário: o texto fica pesado, distante e mais difícil de compreender.
É nesse contexto que aparece a nominalização, recurso bastante presente em textos formais e acadêmicos. Ela consiste, de maneira geral, em transformar uma ação ou característica expressa por um verbo ou adjetivo em um substantivo. Assim, “o governo implementou a medida” pode dar lugar a “a implementação da medida pelo governo”.
A nominalização pode ser útil para organizar informações, condensar ideias e construir um tom mais objetivo. Mas, para escrever bem em uma prova de concurso, não basta saber nominalizar: é preciso entender quando essa escolha melhora a frase e quando ela apenas a torna mais complicada. Continue a leitura para descobrir.
O que é nominalização: quando transformar ações em nomes
A nominalização ocorre quando uma palavra que originalmente expressa uma ação, qualidade ou processo é transformada em um substantivo. É o que acontece, por exemplo, em pares como “decidir” → “decisão”, “implementar” → “implementação”, “avaliar” → “avaliação” e “reduzir” → “redução”.
Observe a diferença entre duas construções:
- O governo decidiu ampliar o programa.
- A decisão do governo pela ampliação do programa…
Na segunda estrutura, a ação de decidir passa a ser apresentada como um elemento nominal. Isso permite encaixá-la em uma construção mais ampla, especialmente quando o texto precisa relacionar diferentes informações.
Esse recurso é frequente em textos institucionais, acadêmicos e administrativos porque pode contribuir para uma apresentação mais condensada das ideias. Em uma redação de concurso, por exemplo, a nominalização pode ajudar a retomar uma ação já mencionada sem precisar repetir toda a estrutura verbal.
Nominalização e impessoalidade: dois recursos que precisam de equilíbrio
A relação entre nominalização e impessoalidade merece atenção porque os dois recursos podem aparecer juntos, mas não são a mesma coisa. A nominalização diz respeito principalmente à transformação de uma estrutura verbal ou adjetiva em uma estrutura nominal. Já a impessoalidade está relacionada à maneira como o texto apresenta o sujeito e a responsabilidade pelas ações ou ideias.
Uma construção como “a análise dos resultados” é nominalizada, mas isso não significa, por si só, que seja impessoal. O contexto pode revelar quem realizou a análise. Da mesma forma, é possível construir uma frase impessoal sem recorrer excessivamente à nominalização.
Em textos de concurso, o cuidado está em utilizar esses recursos para atender ao propósito comunicativo, e não para produzir uma aparência artificial de formalidade. Uma redação não se torna mais sofisticada simplesmente porque contém mais substantivos abstratos.
Sinais de falta de clareza: quando a nominalização começa a pesar
O excesso de nominalizações costuma aparecer quando uma frase acumula substantivos abstratos, preposições e complementos. Nesses casos, o leitor precisa percorrer uma sequência extensa até descobrir quem fez o quê.
Um sinal de alerta é quando uma frase poderia ser compreendida mais rapidamente se um ou mais substantivos fossem substituídos por verbos.
Compare:
=> A realização da avaliação dos impactos da implementação da política permitiu a identificação dos principais problemas.
A estrutura não está necessariamente errada, mas concentra muitas ações transformadas em substantivos: “realização”, “avaliação”, “implementação” e “identificação”.
Uma possibilidade mais fluida seria:
=> A avaliação dos impactos da política permitiu identificar os principais problemas.
A ideia central permanece, mas a frase fica mais enxuta. A nominalização “avaliação” continua cumprindo uma função importante, enquanto “identificação” dá lugar ao verbo “identificar”.
Outro sinal de excesso é a necessidade de empilhar expressões como “a realização de”, “a promoção de”, “a efetivação de”, “a implementação de” e “a utilização de” quando um verbo simples poderia transmitir a mesma informação.
Ao revisar um texto, pergunte:
- Existe um verbo escondido dentro de algum substantivo?
- A frase ficou mais longa por causa de várias expressões com “de”?
- Está claro quem realiza a ação?
- O leitor precisa voltar à frase para entender sua ideia principal?
- A nominalização adicionou precisão ou apenas formalidade?
Se a resposta indicar que o substantivo está dificultando a compreensão, talvez seja hora de recuperar a estrutura verbal.
Alternativas para manter a fluidez: alterne estruturas ao longo do texto
Uma das maneiras mais eficientes de evitar um texto engessado é variar a construção das frases. Em vez de nominalizar todas as ações, alterne estruturas nominais e verbais conforme a função de cada trecho.
A nominalização pode ser especialmente útil para retomar uma ideia anterior. Se o parágrafo já apresentou uma ação, transformar essa ação em substantivo pode ajudar a condensar a informação na frase seguinte.
Também é possível usar a nominalização para organizar uma sequência argumentativa. Expressões como “essa medida”, “essa decisão”, “essa mudança” e “essa iniciativa” permitem transformar acontecimentos anteriores em elementos sobre os quais o texto continuará argumentando.
Além disso, a escolha entre verbo e substantivo pode variar conforme o foco que você deseja dar à frase. Se o objetivo for destacar a ação, o verbo tende a ser mais direto. Se o objetivo for destacar o processo ou conceito, a forma nominal pode ser mais adequada.
Na prática, uma boa revisão pode seguir este caminho:
- Identifique as nominalizações presentes no período.
- Verifique quais delas são necessárias para a construção da ideia.
- Procure verbos que possam substituir substantivos excessivamente abstratos.
- Confira se o agente das ações está claro quando isso for relevante.
- Leia o parágrafo inteiro, observando se há variedade entre estruturas nominais e verbais.
Depois dessa análise, leia o texto em voz baixa ou mentalmente com atenção ao ritmo. Se você sentir que precisa “desmontar” a frase para entendê-la, provavelmente o período ainda pode ser simplificado.
Na redação de concurso: escreva com precisão, mas preserve a naturalidade
Em uma prova discursiva, cada escolha linguística deve estar a serviço da ideia que você pretende defender. A nominalização pode ajudar a construir um texto mais objetivo e formal, mas não deve ser utilizada apenas para fazer a redação parecer mais sofisticada.
Uma frase precisa funcionar para o leitor. Se a escolha por uma construção nominal torna a relação entre as ideias menos evidente, o ganho de formalidade não compensa a perda de clareza.
Por outro lado, evitar qualquer estrutura nominal também pode empobrecer o texto. Uma redação composta apenas por frases com sujeitos explícitos e verbos de ação pode se tornar repetitiva e pouco adequada a determinados contextos argumentativos.
Assim, pense na nominalização como uma ferramenta de escrita, e não como uma obrigação. Em alguns momentos, ela ajuda a condensar e organizar. Em outros, o verbo torna a informação mais viva e direta.
Esse equilíbrio é especialmente importante em concursos porque a qualidade da escrita não está apenas na correção gramatical. A capacidade de organizar ideias, estabelecer relações claras e adequar a linguagem à proposta também contribui para a construção de um texto consistente.
Precisão também é saber quando simplificar
A nominalização é um recurso importante para construir textos formais, objetivos e impessoais, mas seu uso exige equilíbrio. Transformar verbos em substantivos pode ajudar a condensar informações, retomar ideias e destacar processos, mas o excesso pode deixar a frase abstrata, longa e difícil de acompanhar.
Por isso, ao revisar sua redação, não pergunte apenas se determinada construção está correta. Pergunte também: ela torna minha ideia mais precisa ou apenas mais complicada?. Se um verbo simples comunicar a mesma informação com mais clareza, não há motivo para substituí-lo por uma estrutura nominal apenas para parecer mais formal.
Em concursos, escrever bem significa fazer escolhas conscientes. É saber quando nominalizar, quando recuperar o verbo e como combinar diferentes estruturas para construir um texto claro, coeso e adequado à proposta.
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