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BLOG | Adriana Figueiredo

Português para Concursos

Nominalização e impessoalidade em textos de concurso: como ganhar precisão sem engessar a escrita

Foto: Magnific

Em textos de concurso, especialmente em provas discursivas, é comum o candidato associar uma escrita mais formal a frases longas, palavras rebuscadas e construções extremamente impessoais. A preocupação em demonstrar domínio da norma-padrão, porém, pode acabar produzindo um efeito contrário: o texto fica pesado, distante e mais difícil de compreender.

É nesse contexto que aparece a nominalização, recurso bastante presente em textos formais e acadêmicos. Ela consiste, de maneira geral, em transformar uma ação ou característica expressa por um verbo ou adjetivo em um substantivo. Assim, “o governo implementou a medida” pode dar lugar a “a implementação da medida pelo governo”.

A nominalização pode ser útil para organizar informações, condensar ideias e construir um tom mais objetivo. Mas, para escrever bem em uma prova de concurso, não basta saber nominalizar: é preciso entender quando essa escolha melhora a frase e quando ela apenas a torna mais complicada. Continue a leitura para descobrir. 

O que é nominalização: quando transformar ações em nomes 

A nominalização ocorre quando uma palavra que originalmente expressa uma ação, qualidade ou processo é transformada em um substantivo. É o que acontece, por exemplo, em pares como “decidir” → “decisão”, “implementar” → “implementação”, “avaliar” → “avaliação” e “reduzir” → “redução”.

Observe a diferença entre duas construções:

  • O governo decidiu ampliar o programa.
  • A decisão do governo pela ampliação do programa…

Na segunda estrutura, a ação de decidir passa a ser apresentada como um elemento nominal. Isso permite encaixá-la em uma construção mais ampla, especialmente quando o texto precisa relacionar diferentes informações.

Esse recurso é frequente em textos institucionais, acadêmicos e administrativos porque pode contribuir para uma apresentação mais condensada das ideias. Em uma redação de concurso, por exemplo, a nominalização pode ajudar a retomar uma ação já mencionada sem precisar repetir toda a estrutura verbal.

Nominalização e impessoalidade: dois recursos que precisam de equilíbrio

A relação entre nominalização e impessoalidade merece atenção porque os dois recursos podem aparecer juntos, mas não são a mesma coisa. A nominalização diz respeito principalmente à transformação de uma estrutura verbal ou adjetiva em uma estrutura nominal. Já a impessoalidade está relacionada à maneira como o texto apresenta o sujeito e a responsabilidade pelas ações ou ideias.

Uma construção como “a análise dos resultados” é nominalizada, mas isso não significa, por si só, que seja impessoal. O contexto pode revelar quem realizou a análise. Da mesma forma, é possível construir uma frase impessoal sem recorrer excessivamente à nominalização.

Em textos de concurso, o cuidado está em utilizar esses recursos para atender ao propósito comunicativo, e não para produzir uma aparência artificial de formalidade. Uma redação não se torna mais sofisticada simplesmente porque contém mais substantivos abstratos.

Sinais de falta de clareza: quando a nominalização começa a pesar

O excesso de nominalizações costuma aparecer quando uma frase acumula substantivos abstratos, preposições e complementos. Nesses casos, o leitor precisa percorrer uma sequência extensa até descobrir quem fez o quê.

Um sinal de alerta é quando uma frase poderia ser compreendida mais rapidamente se um ou mais substantivos fossem substituídos por verbos.

Compare:

=> A realização da avaliação dos impactos da implementação da política permitiu a identificação dos principais problemas.

A estrutura não está necessariamente errada, mas concentra muitas ações transformadas em substantivos: “realização”, “avaliação”, “implementação” e “identificação”.

Uma possibilidade mais fluida seria:

=> A avaliação dos impactos da política permitiu identificar os principais problemas.

A ideia central permanece, mas a frase fica mais enxuta. A nominalização “avaliação” continua cumprindo uma função importante, enquanto “identificação” dá lugar ao verbo “identificar”.

Outro sinal de excesso é a necessidade de empilhar expressões como “a realização de”, “a promoção de”, “a efetivação de”, “a implementação de” e “a utilização de” quando um verbo simples poderia transmitir a mesma informação.

Ao revisar um texto, pergunte:

  • Existe um verbo escondido dentro de algum substantivo?
  • A frase ficou mais longa por causa de várias expressões com “de”?
  • Está claro quem realiza a ação?
  • O leitor precisa voltar à frase para entender sua ideia principal?
  • A nominalização adicionou precisão ou apenas formalidade?

Se a resposta indicar que o substantivo está dificultando a compreensão, talvez seja hora de recuperar a estrutura verbal.

Alternativas para manter a fluidez: alterne estruturas ao longo do texto

Uma das maneiras mais eficientes de evitar um texto engessado é variar a construção das frases. Em vez de nominalizar todas as ações, alterne estruturas nominais e verbais conforme a função de cada trecho.

A nominalização pode ser especialmente útil para retomar uma ideia anterior. Se o parágrafo já apresentou uma ação, transformar essa ação em substantivo pode ajudar a condensar a informação na frase seguinte.

Também é possível usar a nominalização para organizar uma sequência argumentativa. Expressões como “essa medida”, “essa decisão”, “essa mudança” e “essa iniciativa” permitem transformar acontecimentos anteriores em elementos sobre os quais o texto continuará argumentando.

Além disso, a escolha entre verbo e substantivo pode variar conforme o foco que você deseja dar à frase. Se o objetivo for destacar a ação, o verbo tende a ser mais direto. Se o objetivo for destacar o processo ou conceito, a forma nominal pode ser mais adequada.

Na prática, uma boa revisão pode seguir este caminho:

  1. Identifique as nominalizações presentes no período.
  2. Verifique quais delas são necessárias para a construção da ideia.
  3. Procure verbos que possam substituir substantivos excessivamente abstratos.
  4. Confira se o agente das ações está claro quando isso for relevante.
  5. Leia o parágrafo inteiro, observando se há variedade entre estruturas nominais e verbais.

Depois dessa análise, leia o texto em voz baixa ou mentalmente com atenção ao ritmo. Se você sentir que precisa “desmontar” a frase para entendê-la, provavelmente o período ainda pode ser simplificado.

Na redação de concurso: escreva com precisão, mas preserve a naturalidade

Em uma prova discursiva, cada escolha linguística deve estar a serviço da ideia que você pretende defender. A nominalização pode ajudar a construir um texto mais objetivo e formal, mas não deve ser utilizada apenas para fazer a redação parecer mais sofisticada.

Uma frase precisa funcionar para o leitor. Se a escolha por uma construção nominal torna a relação entre as ideias menos evidente, o ganho de formalidade não compensa a perda de clareza.

Por outro lado, evitar qualquer estrutura nominal também pode empobrecer o texto. Uma redação composta apenas por frases com sujeitos explícitos e verbos de ação pode se tornar repetitiva e pouco adequada a determinados contextos argumentativos.

Assim, pense na nominalização como uma ferramenta de escrita, e não como uma obrigação. Em alguns momentos, ela ajuda a condensar e organizar. Em outros, o verbo torna a informação mais viva e direta.

Esse equilíbrio é especialmente importante em concursos porque a qualidade da escrita não está apenas na correção gramatical. A capacidade de organizar ideias, estabelecer relações claras e adequar a linguagem à proposta também contribui para a construção de um texto consistente.

Precisão também é saber quando simplificar

A nominalização é um recurso importante para construir textos formais, objetivos e impessoais, mas seu uso exige equilíbrio. Transformar verbos em substantivos pode ajudar a condensar informações, retomar ideias e destacar processos, mas o excesso pode deixar a frase abstrata, longa e difícil de acompanhar.

Por isso, ao revisar sua redação, não pergunte apenas se determinada construção está correta. Pergunte também: ela torna minha ideia mais precisa ou apenas mais complicada?. Se um verbo simples comunicar a mesma informação com mais clareza, não há motivo para substituí-lo por uma estrutura nominal apenas para parecer mais formal.

Em concursos, escrever bem significa fazer escolhas conscientes. É saber quando nominalizar, quando recuperar o verbo e como combinar diferentes estruturas para construir um texto claro, coeso e adequado à proposta.

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Sobre Adriana Figueiredo

Há mais de 25 anos, leciona em cursos presenciais e online para alunos de todo o Brasil. Suas redes sociais, juntas, têm mais de 1,2 milhão de seguidores. Especialista em português e redação para concursos, é dona de uma metodologia patenteada que ensina com lógica. Além de ser professora exclusiva do Estratégia Concursos, possui um site especializado em Língua Portuguesa, cuja plataforma de aulas conta com mais de 4 mil alunos matriculados. Também é autora de várias obras, entre elas a “Gramática Comentada” lançada pela Editora Saraiva, considerada em 2016 como um dos "10 livros de português indispensáveis para concurseiros" pela Revista Exame.

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